Autor de “Rumo” considera que livros sempre foram centrais na sua vida
O jovem Natanael Santos lançou em abril de 2023 o livro "Rumo", numa fase em que sentia que a discriminação o impedia de conseguir um emprego, após ter-se licenciado em Gestão pelo Instituto Politécnico de Castelo Branco.
"Não é normal um cigano entrar na universidade”
Natanael Santos
Com 26 anos, natural de Castelo Branco e residente no concelho de Idanha-a-Nova, Natanael Santos é licenciado em Gestão e em Gestão de Recursos Humanos pelo Instituto Politécnico de Castelo Branco, noticiou a revista Visão.
Segundo uma entrevista que deu à revista Visão, os livros assumiram desde cedo um papel central na sua vida.
"Desde criança, os meus melhores amigos são os livros", recordou, acrescentando que aprendeu a ler ainda antes de entrar no primeiro ciclo, graças às enciclopédias que o pai mantinha em casa.
Filho único de uma família com poucos recursos económicos, Natanael Santos admitiu, na entrevista, que, durante grande parte do seu percurso escolar, nunca considerou seriamente a possibilidade de prosseguir estudos superiores.
"Sou cigano, e os ciganos trabalham na venda ou no campo", afirmou à Visão, explicando que abandonou a escola no início do 12.º ano, apesar do bom aproveitamento escolar e do incentivo dos professores.
A decisão seria revertida após um ano de pausa, concluindo o ensino secundário com média de 17,5 valores e ingressando no ensino superior no Instituto Politécnico de Castelo Branco, numa escolha que descreveu como pouco comum dentro da sua comunidade.
"Não é normal um cigano entrar na universidade", afirmou, reconhecendo que enfrentou incompreensão e até algum afastamento social dentro da comunidade, situação que viria a mudar com a maior visibilidade mediática do seu percurso, noticiou a Visão.
Depois de concluir a licenciatura em Gestão, Natanael Santos relatou ter sentido dificuldades acrescidas na entrada no mercado de trabalho, apontando episódios de discriminação associados à sua etnia.
"Tiveram medo de me contratar", contou à Visão, referindo entrevistas em que lhe foi explicitamente apontada a origem cigana como fator de exclusão.
Perante a ausência de oportunidades profissionais, decidiu prosseguir estudos e concluiu uma segunda licenciatura em Gestão de Recursos Humanos, área na qual encontrou trabalho em 2024, no Centro de Apoio Tecnológico Agroalimentar, em Castelo Branco.
Paralelamente, avançou com a escrita de "Rumo", projeto que nasceu de uma sugestão de uma antiga professora, encontrada numa visita à Biblioteca Municipal de Idanha-a-Nova, quando estava desempregado.
O jovem referiu ainda que tem como objetivo tornar-se professor universitário, defendendo a educação como ferramenta central para combater o abandono escolar e promover a inclusão.
"A nossa comunidade tem um índice de abandono escolar muito alto, e isso tem de mudar", sublinhou em declarações à Visão, apelando a um esforço coletivo para quebrar ciclos de exclusão histórica.