Apoio incondicional dos pais permitiu que Luciana Cambão ingressasse no Ensino Superior
Luciana Cambão, uma jovem cigana de 24 anos, é a única mulher da sua família a ter chegado ao Ensino Superior, um percurso que atribui ao apoio incondicional dos pais e a uma negociação constante entre tradição e educação.
“Sou a única rapariga da família que chegou ao Ensino Superior. Tenho muitas primas ciganas. Todas estudaram até uma certa idade e depois desistiram. Eu fui a única rapariga que conseguiu continuar”
Segundo a estudante, nunca enfrentou proibições diretas por parte da família paterna, que é cigana.
“O meu pai nunca me tirou esse privilégio. A minha mãe [que é não cigana] foi muito clara: a Luciana vai continuar a estudar”, recorda.
Reconhece, ainda assim, que a decisão não foi simples. “A minha mãe respeitou muito a cultura cigana, mas aquilo que ela queria ouvir era que eu continuava [a poder estudar]. E nunca me deixou desistir”, diz.
Ao contrário de muitas raparigas ciganas, teve liberdade para fazer várias coisas, nomeadamente para sair com amigas e manter uma vida social ativa.
“Sinto que há muitas raparigas ciganas que não têm essa vantagem e têm muitos problemas com isso”, lamenta.
A entrada no ensino superior foi recebida com entusiasmo pela família. “Toda a gente adorou. Sempre senti muito apoio, muito orgulho”, conta. Esse reconhecimento é particularmente visível nos encontros familiares.
“Quando apareço, dizem com muito orgulho que estou a tirar um curso e que vou ser professora. Isso é muito importante para a afirmação da comunidade cigana”, sublinha.
A jovem diz sentir que o seu percurso começa a produzir efeitos na geração seguinte. “Tenho primos que já têm filhos e que mostram interesse na escola. Tenho uma prima com um filho de 14 anos que quer seguir design gráfico e fala comigo sobre isso”, conta.
Para Luciana, a mudança é inevitável na comunidade. “As feiras já não são o que eram. O meu pai foi feirante e hoje trabalha numa fábrica há 15 anos. A realidade mudou e a escola pode ser uma alternativa”, defende.