Jovem cigana a terminar curso em educação básica quer fazer a diferença nas escolas
Luciana Cambão, uma jovem cigana aluna do curso de Educação Básica, no Politécnico de Setúbal, diz que a vontade de ser professora surgiu cedo, como resposta a uma experiência escolar marcada pela rigidez.
“Desde muito pequena que eu brincava às escolas. Sentava o meu irmão mais velho à secretária e eu era a professora”, recorda, explicando que o interesse pela educação foi-se consolidando como uma forma de “combater aquilo que sofreu”.
Apesar de manter hoje uma relação cordial com a professora primária, a jovem de 24 anos diz que o modelo pedagógico que viveu foi determinante para o caminho que escolheu.
“Era uma professora muito rígida, gritava bastante. Aquilo que eu quero é ser exatamente o oposto: uma professora compreensiva, interessada nos problemas dos alunos, que não descarta ninguém”, afirma.
Filha de pai cigano e mãe não cigana, cresceu “entre dois mundos”, mas nunca sentiu que a escola lhe tivesse fechado portas.
“Nunca escondi quem era. O meu pai ia muitas vezes à escola, durante os intervalos, e toda a gente sabia. Nunca fui posta de parte”, conta, sublinhando que a sua postura pessoal também teve um peso decisivo.
“Eu nunca liguei muito à opinião dos outros. Acho que quando mostramos que estamos incomodados, as pessoas pegam nisso. Eu sempre me dei bem com toda a gente”, diz.
A estudante acredita que o seu percurso académico é também uma forma de romper com um modelo educativo que considera ultrapassado.
“Não quero continuar uma educação antiga, transmissiva. Quero marcar a diferença pela positiva”
Atualmente em estágio numa escola básica no Barreiro, diz sentir que a prática pedagógica confirma a escolha que fez.
“Estive dez semanas com uma turma do primeiro ano e agora vou para uma turma de quarto ano. É de oito a oitenta, mas é incrível”, afirma.
A jovem lamenta, no entanto, a ausência de maior diversidade cultural nas escolas onde faz o seu estágio, nomeadamente relativamente a crianças ciganas.